terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

COMO QUEBRAR UM VASO


Foi sem querer!
- E como você sabe que foi sem querer?
- Ela entrou correndo e esbarrou, foi sem querer
- Ela não viu?
- Não, estava escuro.
-Como foi?
Ela chegou às pressas, ia correr na minha frente para ir ao banheiro mas evitou quando percebeu que eu esticava o fio da tomada para ligar o aspirador de pó. Perguntei aonde ela ia com tanta pressa e ela começou a correr de novo dizendo para onde ia. Foi quando ela esticou o braço, não viu o vaso e derrubou ele no chão.
- Qual vaso?
- O de ânfora em porcelana Romana
-VISH! Mais um desses, de novo? Quantas vezes derrubaram de propósito esses vasos no chão, umas... 10?
-19!
-E você fez ela pagar também, não foi?
-Não!
- Como Não? Todas as vezes que alguém joga um desses vasos no chão você faz a pessoa pagar o preço.
-É! E todas as vezes em que elas se oferecem quebram algum deles de novo.
E o que você fez, por que você não disse para ela pagar o seguro?
- Ela entrou correndo, não viu o vaso e estava escuro. Além do que não se briga com uma pessoa por esbarrar num vaso sem querer, mesmo que ele seja raro.
- E qual a diferença?
- A diferença é que ela cometeu um acidente, entrou correndo, não viu o vaso. Já as outras pessoas veem os vasos, sabem dos vasos, dizem ficar maravilhadas com os vasos e mesmo assim jogam no chão de propósito quando acham que não tem valor.
- Então elas pegam o vaso nos braços, olham nos seus olhos e soltam o vaso no chão de propósito. Sei, já me contaram essa história antes. De como invadiram a sua casa e quebraram os vasos por acharem eles sem valor comercial e como te bateram quando descobriram que você não tinha muito dinheiro.
É verdade que a polícia quis te prender por ter batido nos ladrões dizendo que era muito natural eles invadirem a casa das pessoas, baterem nelas e que você era o único da vizinhança que reclamava disso? É verdade que você teve que pedir desculpas publicamente para um dos caras que te bateu?
-Sim! Tive que fazer isso e ainda lavar a camiseta dele que sujei durante a briga, caso contrário a polícia disse que assinaria uma advertência contra mim. Você não se lembra que o ladrão queria uma camiseta nova?
- Sim! Eu me lembro! Mas você realmente tem certeza de que ela...
- Eu já disse! Estava escuro, ela mal conhece a minha casa, nunca viu o vaso. E além disso ela é distraída, dorme pouco. Não ficaria surpreso se um dia ela passa-se na rua usando as calças do pijama no lugar da calça jeans.
-Então você não ficou chateado?
Claro que eu fiquei, tive raiva na hora, mas daí eu lembrei que ela não sabia das histórias, das inúmeras vezes em que eu apanhei dos ladrões e a polícia não queria levar o caso adiante, por que eu não tinha nada de valor que foi roubado, etc.
E o que você fez?
Bom, uma semana depois ela passou pela rua novamente e eu disse o que tinha acontecido, que demorei para dizer que tinha ficado chateado por causa das vezes que já quebraram os meus vasos, que precisava separar ela das outras histórias, etc, etc.
-E como ela reagiu?
-No começo fiquei meio temeroso, ela não estava muito bem, não a conheço muito bem, não sabia como ela iria reagir.
-Como assim, ela estava doente?
- Tinha pedra nos rins, nada que venha ao caso comparado com as ameaças de advertência da polícia cada vez que alguém te agride. Ela foi inteligente, pegou nas minhas mãos, olhou nos meus olhos e me pediu desculpas, muito diferente dos outros policiais que vão logo apontando o dedo na sua cara e usando da autoridade para se justificar.
-Ah! Ela é da polícia também é?
Sim! Polícia forense. Um dia eu passava pela rua e ela me chamou para tomar um café. Fiquei desconfiado, mas como nem sempre os forenses andam armados, resolvi arriscar. Uma semana depois que ela foi até em casa, me deu um abraço e pediu desculpas de novo por ter me chateado, derrubando o vaso.
- E o vaso?
- Quebrei o resto e joguei fora!
- Você jogou fora um vaso de de porcelana Romana ?!!! Você é louco?


-Claro! Já estou cansado de todas as vezes que invadiram a minha casa por causa desses vasos e eu tive que ligar para o seguro ouvindo a polícia dizer que eu deveria esconder os vasos. Que, apesar de eu ter sido agredido e blá! blá! blá! E que se eu não estivesse satisfeito com a vizinhança que caísse fora. E Blá! Bla! Blá! E esse vaso era velho, todo remendado. No fundo eu acho que ela até me fez um favor derrubando aquela velharia dali.

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