terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Non Ducor Duco



Se uma pessoa sem deficiência derruba um prato num Self – Service: Aparece um garçom perguntando se está tudo bem, se você precisa de ajuda e logo depois ele vai pegando uma pá de lixo e uma vassoura. Recolhe o lixo, e pronto, acabou o assunto!
Se uma pessoa com deficiência derruba um prato no Self Service: Aparece o garçom, o gerente, o resgate, a SWAT, a imprensa, Jack Bauer.
E se você diz que não bebe nada alcoólico? A primeira coisa que as pessoas perguntam é se você toma algum tipo de remédio. Eu tenho 22 anos de idade e nunca bebi e nem fumei. Quando se é criança e se passa mais tempo num prédio de traumatologia do que em casa,a gente pensa em se cuidar mais pra não ir parar no hospital. Eu nunca tive caxumba nem catapora, e nem nenhuma doença que me fizesse ficar internado em estado grave. Só que eu comecei a minha infância na ala de Traumatologia e Ortopedia do HC (Hospital das Clínicas.) Não é o lugar mais Horrível do mundo, mas também não teria graça nenhuma estender uma toalha e fazer um piquenique ali. Vi muita gente com gaiolas nas pernas, nos braços. Gente que perdeu um membro porque bebeu e foi dirigir ou porque dormiu com o cigarro aceso. Minha mãe me levava duas vezes por semana no HC, eu tinha 3 pra 4 anos, não achava chato e nem ficava perturbando a minha mãe com aquele pedido clássico de criança em hospital “Mãe, vamos embora? ”  Ela me estimulava a se exercitar e se alongar desde um ano praticamente, quando eu comecei a fazer fisioterapia eu nem sabia que era fisioterapia, achava que era um procedimento padrão que toda mãe fazia no filho antes de dar banho. O problema é que fisioterapia é um treco que dói pra caramba. Se alongar é muito dolorido, depois de operar então. Eu chorava muito, mas a minha sorte é que eu sempre tive fisioterapeutas muito doces que sempre me incentivaram. Todas as vezes em que eu gritava de dor e pensava em desistir eu levantava a cabeça do tablado e via as outras crianças da minha idade andando e tinha inveja delas, na rua, no hospital. Perguntava pros meus colegas de fisioterapia se andar era legal, se eles demoraram muito pra aprender, se era muito difícil. Por mais que eu quisesse desistir, se alongar era o único jeito.  Agora escrevendo esse texto é que eu percebo que penso assim inconscientemente até hoje. “Foda-se se tá difícil, foda-se dói.



Com 5 anos de idade, uma vez por semana depois dos exercícios, eu ia com a minha fisioterapeuta pra uma sala onde a gente esperava uns estudantes, lá ela me fazia caminhar em cima de uma passarela de 2 metros com duas barras paralelas da mesma largura que  eram presas na base da passarela pra ser usadas como corrimão. Eu andava pra lá e pra cá. Os estudantes faziam anotações, tiravam suas dúvidas com a minha fisioterapeuta e as vezes ela me pedia pra repetir alguns movimentos pra reavaliar argumentos dela. No começo eu não me incomodei muito, até que chegou uma época em que eu comecei a prestar atenção na conversa. É claro que eu não entendia muita coisa, mais só de perceber aquele monte de gente sentado, conjecturando sobre mim e fazendo anotações como se eu fosse um espécime a ser estudado, me incomodou muito, daí eu pedi pra não fazer mais aquilo. “Tudo bem! ” Ela disse, depois me deu um beijo no rosto, e sorriu.

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